domingo, 21 de março de 2010

Contra a corrente,só pra exercitar!


Nadar contra a correnteza nem sempre é ruim. A gente poderia desacelerar um pouco, talvez. Pra que tanta pressa? Aonde queremos chegar? Questiono-me recorrentemente, mas sem êxito na resposta. Tentar pensar coletivamente, quando apenas o que se vê é individual. Comprar uma bicicleta ao invés do quatro-rodas magnífico que saiu na televisão. Pegar um livro surrado no lugar de horas na internet, ressecando sua retina. Vá ver um amigo ao invés do orkut, dar um abraço ao invés dos pixels distorcidos da webcam. De vez em quando, espremer as laranjas ao invés de adquirí-las retangulares, sorri quando todo mundo se farta de uma amargura desoladora. O mundo anda amargurado. Desligar a novela, só por alguns minutos, e tentar ficar em silêncio. Pensar sobre si. Tentar buzinar menos, também. Abrir mais as janelas no lugar do ar gelado inventado. A mente vive num estresse de informações sem precedentes. E a criatividade? Pode não sobrar espaço para ela. Pressionamos a evolução. Chegamos a um estágio que desconhecemos nossos próprios medos, nossos próprios desejos. Temos medo de que? Temos fome de que? Quais nossas ideologias? O medo está difuso, qualquer um é suspeito, e por isso, partimos do princípio da desconfiança para depois confiar. O valor? A Ética? A Política? Tudo meio dividido por um fator comum. O valor humano foi definido pela média, não pela grandeza que ainda resta. Menos microondas, mais fogueiras. Menos celulares, mais cartas. Menos gasolina, mais suor. Menos corrupção, mais comprometimento. Com todos. Com tudo que construímos em nossa órbita. Não podemos esperar grandes revoluções lideradas por heróis de espada na mão e orgulho no peito. A mudança vem de baixo, das atitudes, do micro-cosmo social, das iniciativas particulares. Cada ser traz em si a capacidade de incinerar a lógica engessada, mas muitas vezes não possuem consciência de tal façanha. De buscar. Mudar. Desejar com o desejo próprio. Ver com os próprios olhos. Sem miopia. Pensar com as próprias capacidades. Construir um mundo próprio em meio a tanto padrão, a tanto modelo. Eis a questão. Do que precisamos para ser feliz? De um carro, uma casa, de uma pessoa com tais e tais atributos ao nosso lado? Tolice projetar o ideal de felicidade nas coisas mundanas, no sempre acumular, no concreto, no carbono e sobretudo, no outro. Ninguém pode nos trazer o passaporte mágico da felicidade. Mas, afinal, o que faz a gente feliz?

Brasis do Brasil.


Viajar para o interior do Brasil sempre foi uma experiência única. Cartilha humana indispensável para entender o que é realmente nosso país. A terra árida, poeira ao vento, casebres de palha, arbustos rudes, sol hostil, água rarefeita. Céu tão azul quanto o mar. Sempre azul. Um azul que chega a provocar nâuseas.É incrível ver como,quando se quer pode-se chegar a qualquer lugar. É incrível ver o movimento chegando tão longe. Maranhão, quem poderia imaginar? Mas mesmo em minas, já era incrível ver o que se é capaz de fazer quando a vontade não é pequena e o coração está aberto a Deus e ao amor que dele iradia.
O que me deixa perplexa é que em meio à brutalidade das condições sociais e geográficas, da falta de investimentos governamentais, da precária condição de vida, o sertanejo possui uma incrível capacidade de sorrir. Aqueles olhos arregalados e curiosos, vidrados em qualquer coisa nova que trafegue pelas estradas de chão batido. Atenciosos em suas explicações, ainda que vazias em conteúdo, apenas para se sentirem soberbamente simples, a solidariedade sem custo, talvez a oportunidade de falar, colocar-se como ser humano:

- Boa Tarde! O senhor conhece por aqui a fazenda do Seu João José?
- Pronto! Seu josé das batatas? Vou lhe ensinar: Segue essa rua reto, arrodeia a escola. Chega numa avenida grande.Pede informação. Eles vão lhe explicar, sorri o sertanejo com os dentes esfarelados.Era interior de Minas Gerais, não muito distante do Rio. Mas distante o suficente para se sentir o calor sufocante da miséria. Ainda fica a incrível capacidade de sorrir. Como é possível?Mas nem tudo são sorrisos.
E nas paredes de ripas de madeira soldadas por barro, abria-se uma janela minúscula. Tão minúscula que parecia a moldura de um quadro triste. Os braços apoiados na madeira e o rosto descabelado no centro da tela. Sem muitas cores, apenas os olhos curiosos captando o movimento. Assim que eu fitava essas personagens, o quadro ganhava cor e um sorriso luminoso preenchia a pintura. Uma pintura de gente valente, persistente, resignada, gente com o coração apoiado pelas rezas e améns, pela cantiga de roda, pelas novelas da televisão, pela rapadura. Gente que espera a chuva com afinco. Gente como a gente. Gente transbordando Brasil.