
Nadar contra a correnteza nem sempre é ruim. A gente poderia desacelerar um pouco, talvez. Pra que tanta pressa? Aonde queremos chegar? Questiono-me recorrentemente, mas sem êxito na resposta. Tentar pensar coletivamente, quando apenas o que se vê é individual. Comprar uma bicicleta ao invés do quatro-rodas magnífico que saiu na televisão. Pegar um livro surrado no lugar de horas na internet, ressecando sua retina. Vá ver um amigo ao invés do orkut, dar um abraço ao invés dos pixels distorcidos da webcam. De vez em quando, espremer as laranjas ao invés de adquirí-las retangulares, sorri quando todo mundo se farta de uma amargura desoladora. O mundo anda amargurado. Desligar a novela, só por alguns minutos, e tentar ficar em silêncio. Pensar sobre si. Tentar buzinar menos, também. Abrir mais as janelas no lugar do ar gelado inventado. A mente vive num estresse de informações sem precedentes. E a criatividade? Pode não sobrar espaço para ela. Pressionamos a evolução. Chegamos a um estágio que desconhecemos nossos próprios medos, nossos próprios desejos. Temos medo de que? Temos fome de que? Quais nossas ideologias? O medo está difuso, qualquer um é suspeito, e por isso, partimos do princípio da desconfiança para depois confiar. O valor? A Ética? A Política? Tudo meio dividido por um fator comum. O valor humano foi definido pela média, não pela grandeza que ainda resta. Menos microondas, mais fogueiras. Menos celulares, mais cartas. Menos gasolina, mais suor. Menos corrupção, mais comprometimento. Com todos. Com tudo que construímos em nossa órbita. Não podemos esperar grandes revoluções lideradas por heróis de espada na mão e orgulho no peito. A mudança vem de baixo, das atitudes, do micro-cosmo social, das iniciativas particulares. Cada ser traz em si a capacidade de incinerar a lógica engessada, mas muitas vezes não possuem consciência de tal façanha. De buscar. Mudar. Desejar com o desejo próprio. Ver com os próprios olhos. Sem miopia. Pensar com as próprias capacidades. Construir um mundo próprio em meio a tanto padrão, a tanto modelo. Eis a questão. Do que precisamos para ser feliz? De um carro, uma casa, de uma pessoa com tais e tais atributos ao nosso lado? Tolice projetar o ideal de felicidade nas coisas mundanas, no sempre acumular, no concreto, no carbono e sobretudo, no outro. Ninguém pode nos trazer o passaporte mágico da felicidade. Mas, afinal, o que faz a gente feliz?
