domingo, 21 de março de 2010

Brasis do Brasil.


Viajar para o interior do Brasil sempre foi uma experiência única. Cartilha humana indispensável para entender o que é realmente nosso país. A terra árida, poeira ao vento, casebres de palha, arbustos rudes, sol hostil, água rarefeita. Céu tão azul quanto o mar. Sempre azul. Um azul que chega a provocar nâuseas.É incrível ver como,quando se quer pode-se chegar a qualquer lugar. É incrível ver o movimento chegando tão longe. Maranhão, quem poderia imaginar? Mas mesmo em minas, já era incrível ver o que se é capaz de fazer quando a vontade não é pequena e o coração está aberto a Deus e ao amor que dele iradia.
O que me deixa perplexa é que em meio à brutalidade das condições sociais e geográficas, da falta de investimentos governamentais, da precária condição de vida, o sertanejo possui uma incrível capacidade de sorrir. Aqueles olhos arregalados e curiosos, vidrados em qualquer coisa nova que trafegue pelas estradas de chão batido. Atenciosos em suas explicações, ainda que vazias em conteúdo, apenas para se sentirem soberbamente simples, a solidariedade sem custo, talvez a oportunidade de falar, colocar-se como ser humano:

- Boa Tarde! O senhor conhece por aqui a fazenda do Seu João José?
- Pronto! Seu josé das batatas? Vou lhe ensinar: Segue essa rua reto, arrodeia a escola. Chega numa avenida grande.Pede informação. Eles vão lhe explicar, sorri o sertanejo com os dentes esfarelados.Era interior de Minas Gerais, não muito distante do Rio. Mas distante o suficente para se sentir o calor sufocante da miséria. Ainda fica a incrível capacidade de sorrir. Como é possível?Mas nem tudo são sorrisos.
E nas paredes de ripas de madeira soldadas por barro, abria-se uma janela minúscula. Tão minúscula que parecia a moldura de um quadro triste. Os braços apoiados na madeira e o rosto descabelado no centro da tela. Sem muitas cores, apenas os olhos curiosos captando o movimento. Assim que eu fitava essas personagens, o quadro ganhava cor e um sorriso luminoso preenchia a pintura. Uma pintura de gente valente, persistente, resignada, gente com o coração apoiado pelas rezas e améns, pela cantiga de roda, pelas novelas da televisão, pela rapadura. Gente que espera a chuva com afinco. Gente como a gente. Gente transbordando Brasil.

Um comentário:

  1. Adorei o texto, mostra realmente a verdade da qual existe no nosso imenso país. É até triste saber dessa ocorrência, mas prazeroso ver que eles apesar de tudo mantem seus olhos abertos e um sorriso no rosto. ^^

    ResponderExcluir