quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Saramagueando


A ILHA DESCONHECIDA.
'Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais.As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz,talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra...Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar,
 à procura de si mesma.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Elo



Tomou uma xícara do café requentado com um orgulho espantoso e olhou pelo vidro fosco os primeiros raios tímidos do sol de terça-feira. Há muito não se olhava no espelho, não via sua imagem desgastada pelas fendas dos tempos. E elas aprofundavam-se numa velocidade espantosa. Profundas, cada vez mais profundas. Mais um gole, envolvendo a louça com as mãos geladasabsorvendo todo aquele calor necessário. Era julho. Antes do último gole, um naco de pão sem manteiga, sobre a mesa de madeira escura e rústica. Mogno. Sentava-se.-


Essa cena me veio a mente quando entrei na casa da minha bisavó.Lá ainda estava sua presença semi-física, como se o velório fosse uma grande encenação .Como se a qualquer momento ela fosse aparecer com seu andar debilitado, para nos receber com o seu clássico choro de saudade.Involuntariamente esperei alguns segundos, ela não veio.


Enquanto todos iam para a cozinha ,segurei o passo e entrei no quarto.Lá ainda estava o terço pendurado sobre o encosto da cama, as imagens de santos e os folhetos de oração ,eram rastros de sua fé em vida que naquele momento me serviam de alento, como pistas que indicavam onde é sua nova morada. Na estante,fotos das infinidades de filhos,netos ,bisnetos e agregados. No armário, os crochês e tricôs tecidos com esmero pelas mãos envelhecidas.


Voltei a sala.No final do ambiente, estava a mesa comprida que outrora servira de cúpula para as mais esparafatosas reuniões da família.

À mesa o café quente e as guloseimas faziam juz a tradição mineira que prega que as visitas não saiam mal servidas- ainda que de um velório-. Num primeiro instante,dilatavam-se os olhos num pavor concreto .Embotava o colorido dos sorrisos fáceis.

-Essa era a hora do pãozinho da dona théa' comentou tio zezé pra quebrar o gelo.

Esboçei um sorriso, misto de nostalgia e resignação.Aos poucos, junto com o café , os nós passavam gargantas a dentro e as línguas desgrudavam-se dos palatos; a conversa fluíu.Algumas lembranças engraçadas acerca das caduquices do meu bisavô também falecido, alguns cafés ,queijos e brincadeiras. Todos estavam conformados, sabiamos que ela vivera muito e que tinha ido além de suas capacidades físicas. A prosa mineira é sempre excelente -disso sinto muita falta -.mas queria ir embora, como eu queria ir embora e não passar a noite lá.

No dia seguinte, na despedida, uma tia avó me disse :

- Volta sempre, sua avó gostaria.

Respondi que sim com a cabeça mas acrescentei para cercear as esperanças :

-É difícil pegar sempre estrada, os estudos não estam fáceis.

Ela entendeu o recado.

Da janela me despedi da cidade, arrependida por não tê-la visitado mais vezes.

E foi assim.Era justo, a ordem natural das coisas, só que para o coração, nada é mais justo que a presença de quem amamos.E por isso, não sei se volto tão cedo. Ainda que o carinho pelos parentes exija algum contato, o nosso elo maior se fora.

Quero voltar com meus filhos - talvez a ferida já esteja bem menor e as lembranças menos límpidas não tragam tanta saudade - vou querer que conheçam um pouco dessa minha experiência que , apesar de dolorida, me mostra que ter um coração de carne e amar é o que realmente dá sentido as nossas vidas. Esse é afinal, o legado que minha avó nos deixou.