terça-feira, 24 de agosto de 2010

Elo



Tomou uma xícara do café requentado com um orgulho espantoso e olhou pelo vidro fosco os primeiros raios tímidos do sol de terça-feira. Há muito não se olhava no espelho, não via sua imagem desgastada pelas fendas dos tempos. E elas aprofundavam-se numa velocidade espantosa. Profundas, cada vez mais profundas. Mais um gole, envolvendo a louça com as mãos geladasabsorvendo todo aquele calor necessário. Era julho. Antes do último gole, um naco de pão sem manteiga, sobre a mesa de madeira escura e rústica. Mogno. Sentava-se.-


Essa cena me veio a mente quando entrei na casa da minha bisavó.Lá ainda estava sua presença semi-física, como se o velório fosse uma grande encenação .Como se a qualquer momento ela fosse aparecer com seu andar debilitado, para nos receber com o seu clássico choro de saudade.Involuntariamente esperei alguns segundos, ela não veio.


Enquanto todos iam para a cozinha ,segurei o passo e entrei no quarto.Lá ainda estava o terço pendurado sobre o encosto da cama, as imagens de santos e os folhetos de oração ,eram rastros de sua fé em vida que naquele momento me serviam de alento, como pistas que indicavam onde é sua nova morada. Na estante,fotos das infinidades de filhos,netos ,bisnetos e agregados. No armário, os crochês e tricôs tecidos com esmero pelas mãos envelhecidas.


Voltei a sala.No final do ambiente, estava a mesa comprida que outrora servira de cúpula para as mais esparafatosas reuniões da família.

À mesa o café quente e as guloseimas faziam juz a tradição mineira que prega que as visitas não saiam mal servidas- ainda que de um velório-. Num primeiro instante,dilatavam-se os olhos num pavor concreto .Embotava o colorido dos sorrisos fáceis.

-Essa era a hora do pãozinho da dona théa' comentou tio zezé pra quebrar o gelo.

Esboçei um sorriso, misto de nostalgia e resignação.Aos poucos, junto com o café , os nós passavam gargantas a dentro e as línguas desgrudavam-se dos palatos; a conversa fluíu.Algumas lembranças engraçadas acerca das caduquices do meu bisavô também falecido, alguns cafés ,queijos e brincadeiras. Todos estavam conformados, sabiamos que ela vivera muito e que tinha ido além de suas capacidades físicas. A prosa mineira é sempre excelente -disso sinto muita falta -.mas queria ir embora, como eu queria ir embora e não passar a noite lá.

No dia seguinte, na despedida, uma tia avó me disse :

- Volta sempre, sua avó gostaria.

Respondi que sim com a cabeça mas acrescentei para cercear as esperanças :

-É difícil pegar sempre estrada, os estudos não estam fáceis.

Ela entendeu o recado.

Da janela me despedi da cidade, arrependida por não tê-la visitado mais vezes.

E foi assim.Era justo, a ordem natural das coisas, só que para o coração, nada é mais justo que a presença de quem amamos.E por isso, não sei se volto tão cedo. Ainda que o carinho pelos parentes exija algum contato, o nosso elo maior se fora.

Quero voltar com meus filhos - talvez a ferida já esteja bem menor e as lembranças menos límpidas não tragam tanta saudade - vou querer que conheçam um pouco dessa minha experiência que , apesar de dolorida, me mostra que ter um coração de carne e amar é o que realmente dá sentido as nossas vidas. Esse é afinal, o legado que minha avó nos deixou.


Nenhum comentário:

Postar um comentário